Desde que me lembro já quis ter quase todas as profissões. Entre os 4 e os 5 anos queria ser professora, cabeleireira e veterinária. Aos 6 quis ser cantora (lembram-se do post do cd da Daniela Mercury?). Aos 8 voltei a querer ser professora. Foi um desejo tão forte que me juntei a uma amiguinha, pegá-mos em giz e fomos escrever contas na parede da escola. O desejo passou quando 15 minutos depois a sra. "contina" me foi chamar à sala e me obrigou a limpar a parede. Acho que esse trauma me apagou desejos de profissões durante uns anos porque salto agora para os 13 anos. Em que decidi que ia ser educadora de infância. Outra vez tive um desejo tão forte que fui ao jardim infantil da terrinha pedir emprego. Ao que amavelmente me disseram "neste momento não precisamos de ninguém...".
Depois comecei a beijar rapazes e esqueci-me das profissões. Depois pus aparelho e (coincidentemente, claro) voltei a ter tempo para pensar em profissões.
Aos 14 disse que o meu sonho era ser pasteleira. O meu pai torceu o nariz mas aceitou. Mas os meus pais têm um defeito terrível que é "inicias um tema levas com ele até à exaustão". O que levou a que falassem com um amigo de uns amigos para me levar à fabrica de doces regionais da qual ele era dono, para ver o quão
Aos 15, quando passei para o 10º ano, escolhi ciências apesar de ter feito um daqueles testes de aptidões ou lá o que é e me ter dado claramente e com muita vantagem Artes. O que eu queria mesmo, mesmo, mesmo era... ser bióloga marinha. Nadar e fazer festas com os golfinhos (só, porque era mesmo isso que se resumia a minha definição de "bióloga marinha"). Claro que quando temos 15 anos e passamos para o secundário as coisas tornam-se mais sérias do que quando se tinha 5 anos. E o meu pai levou isso muito a sério.
Aos 16, a meio do segundo período do 11º ano comecei a pensar que para nadar e fazer festas aos golfinhos podia pagar 120€ (na altura, nem quero saber quanto será agora) e ir ao Zoomarine. Portanto, será que eu estava mesmo a seguir bem? Ciências, eu que sou um zero a matemática, física-química... Toca a fazer outro teste de aptidão. Que por acaso e com grande vantagem dá... artes! Espantem-se! E o que é que eu decidi? Voltava ao 10º ano, estudava artes e depois logo "enveredava" por um caminho mais propício à minha pessoa. Fui linchada. "Aiii que agora vais mudar! Quase no fim!! E vais desperdiçar dois anos!!". Foi o Daddy e foi a "minha melhor amiga". Aquela que me dizia a gozar e com desdém que os psicólogos só servem para os meninos betinhos e fraquinhos que não sabem resolver os seus problemas sozinhos. Puta.
Continuei em ciências. Não gosto de ferir susceptibilidades. Cheguei ao 12º com 8 a matemática e 8 a física-química (e a vontade de escrever fisicóquimica?). Disse que não ia fazer matemática nesse ano, ia descansar essa disciplina e concentrar-me noutras como a tal F-Q, a biologia que eu até gostava (quando se tem bons professores é impossível não se gostar de determinadas disciplinas), português (o medo, o horror, a tragédia por causa dos exames). Acabei o 12º com 3 a F-Q, 15 a biologia, 13 a Português e boas notas no resto das disciplinas. Implorei aos meus pais para me deixarem vir para Lisboa estudar matemática. É aqui que mora a "minha melhor amiga" - puta. - e a minha vida dependia disso. E porque o que eu queria mesmo, mesmo, mesmo ser era... cozinheira! E como até há uma escola muito boa aqui (AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA - é uma private joke entre mim e os dois últimos anos da minha vida) era já caminho andado para me mudar para cá. Eu morria se não viesse. E os meus pais - os pais mais fixes do mundo - deixaram. Vim morar sozinha aos 17 anos. Inscrevi-me em matemática e F-Q. Eu tinha que fazer estas duas merdas nem que Cristo viesse à terra e me quisesse para santa. F-Q foi um calo. Como os exames de entrada na escola de cozinha eram biologia, F-Q ou economia, pensei "bem, 'bora lá dar-lhe na economia". Estudei em casa, duas semanas antes do exame. Nunca fui a nenhuma aula. Nunca tive explicador. Saí do exame com 15. Matemática? Chumbei.
Voltei para a terrinha. Chorei muito. Mas não porque fosse perder muito da minha vida. A "minha melhor amiga" - puta - ia para o 2º ano da faculdade e ia ter ainda menos tempo para mim. O bode com quem andava aos beijinhos tinha-me ligado a dizer que me tinha posto os cornos na noite algarvia. Não, eu não perdia nada em Lisboa. Apenas chorei porque queria já estar na faculdade. Queria mesmo ter passado a matemática. Porque me esforcei, muito mesmo. Gastei mais de 1000€ em explicações (o que vale é que foi para um amigo e ainda levei muitos descontos). Gastei muito tempo, dedicação, empenho. E sabia a matéria. Mas os azares acontecem.Chorei porque mais uma vez desiludi os meus pais.
Nesse ano na terrinha pouco mudou. Queria ser cozinheira. Queria voltar a morar em Lisboa sozinha. Deixei de falar com a "minha melhor amiga" - puta - e não arranjei enrolanços. Concentrei-me em passar. Passei com 10. Mas passei. Em Julho (espantem-se outra vez) mudei outra vez de sonhos. Porque naquele ano em Lisboa despertaram-me o bicho. E pedi aos meus pais para entrar numa faculdade onde poderia estudar aquilo que ia mesmo ser a minha "profissão". Não podia. Porque o que eu queria, segundo eles, era ser cozinheira. E era cozinheira que ia ser. No dia das candidaturas pensei muito. Pensei "E se....". Mas não fiz o "se". Inscrevi-me na faculdade de hotelaria. Apenas com duas opções. Dia ou noite. Rezei. Rezei muito, pedi a Deus que não me deixasse entrar. Que não tivesse média. Ou vagas. Deus não existe.
Entrei. Conheci o homem da minha vida. Vim para Lisboa. Com o sonho partido fui estudar para vir a ser chef. Desde Novembro que desisti da faculdade. Odiei todos os dias da minha vida por ter entrado naquela faculdade. Odiei não ter clicado naquela área que eu queria. Adoeci. Muito. Fisica e mentalmente. E chorei, muito. Porque tinha, mais cedo ou mais tarde, que contar aos meus pais. E desiludi-los. Outra vez. Fi-los gastar dinheiro em vão.
Já contei.
Hoje estou em Lisboa à procura de trabalho. Como se isso fosse possível. Hoje não tenho sonhos. Hoje quando me perguntam "o que é que queres ser?" eu apenas respondo "quero trabalhar".
Hoje quero-me ir embora, quero abrir um negócio num país qualquer. Numa ilha cheia de sol. Podia abrir um bar e vender boas caipiriñas. E tostas. E sumos. E batidos. E gelados. Os melhores do mundo. Mas não posso. Tenho um homem comigo e não tenho dinheiro. Não posso arriscar. Não tenho hipóteses neste país nem fora dele. E por isso penso "então afinal qual é o sentido da vida?". "Afinal o que é que estamos aqui a fazer?". "Porque é que (sobre)vivemos?"
Se souberem a resposta avisem. Ou se souberem de um trabalhinho avisem também.
